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O Caso da Rua do Corvo

  • 23 de abr. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: 10 de abr.

Por Adriana Costa Reis



Na rua do Corvo, escura e vazia,

Um corpo foi achado ao nascer do dia.

Sem sangue, sem marcas, sem agressão,

Com olhos abertos em contemplação.


Chamaram um homem de olhar sombrio,

Detetive antigo, da alma em desvio.

"Há algo de estranho", foi seu pensar,

"Alguém quis a morte dissimular."


A vítima era um tal senhor Vicente,

Um velho caduco, mas inteligente.

Muitos diziam que ouvia a lua

E escrevia cartas para todos da rua.


Em sua gaveta, um jogo de cartas,

Algumas queimadas, outras ocultas.

Havia um bilhete num tom cruel:

"Sabes demais. Te espero no céu."


Nenhum sinal de arrombamento,

Nenhum barulho, nenhum lamento.

Mas sobre a mesa, cálice derramado,

E do lado, um livro aberto e rasgado.


Na contracapa, um nome à caneta,

Igual ao riscado de sua caderneta.

O detetive murmurou, focado:

“Um nome riscado é um nome enterrado.”


Visitou vizinhos, todos em pranto.

Mas algo soava forçado e tanto.

Um gato miava sem parar,

Sempre ao mesmo ponto a farejar.


Era no jardim, sob a roseira,

Que o chão escondia a merendeira.

Sumira, mas a história ficou em sigilo,

A coisa toda foi um grande vacilo.


Ali enterrada, uma bengala torta,

Com o sangue encontrado na porta.

Fios de cabelo, um grisalho, outro fino,

Ligavam alguém ao mesmo destino.


A esposa falecida, diziam: “sumiu”.

Mas sua aliança ninguém viu.

No porão, o detetive vasculhou

Um diário de amor que se apagou.


Nas folhas, palavras como "vingança",

"Eterno retorno" e "última dança".

E uma foto rasgada ao meio

De um rosto encostado junto ao seio.


Espantado, ele viu com estranha dor,

O homem na imagem: o investigador.

Mesmo chapéu, mesmo olhar fechado,

Mesma cicatriz num tom avermelhado.


Voltou à sala, trêmulo e só,

Com um frio que gelava até o pó.

Tocou o espelho do corredor...

A imagem se foi, total terror.


Na parede do quarto, escrito a batom:

"A vida é ruído sem claro tom.

Tu és Vicente, esqueceste quem?

Bem-vindo de volta, és tu também."


E então entendeu — era ele, afinal,

O morto, o louco, no caso criminal.

Revivia o crime a cada manhã,

A história já não lhe era estranha.


Na velha esquina da Rua do Corvo,

Um caso esquecido ainda é novo.

Cada ladrilho parece acusar

Quem ousa por lá investigar.



O "Caso da Rua do Corvo" foi escrito especialmente para a coletânea Mistérios – Contos e Poemas – Vol. III, da Revista Conexão Literatura. O poema conduz o leitor por uma investigação que se desdobra no interior da própria consciência. Entre pistas e fragmentos de memória, a narrativa constrói uma atmosfera densa, em que realidade e delírio se confundem. Expõe a fragilidade da identidade e a repetição do que não foi elaborado. Ao final, o que se descobre não é apenas um culpado, mas um sujeito preso a si mesmo, condenado a revisitar, incessantemente, aquilo que tentou esquecer.


Que a graça, a paz e a lucidez estejam sempre com vocês.

Carinhosamente, Adriana Costa Reis.



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Textura de mármore em close-up
Criar é escrever-se

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"6 Orai pela paz de Jerusalém; prosperarão aqueles que te amam.

7 Haja paz dentro de teus muros, e prosperidade dentro dos teus palácios.

8 Por causa dos meus irmãos e amigos, direi: Paz esteja em ti.

9 Por causa da casa do Senhor nosso Deus, buscarei o teu bem."
Salmo 122

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