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O Beijo de Cicuta

  • 28 de jun.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 29 de jun.

Por Adriana Costa Reis



 

Os teus lábios macios sobre os meus,

Calando a noite em doce claridade;

Beijei desejos velados por véus,

Crendo abraçar a própria eternidade.

 

Ardíamos à luz da lua fria,

Curvavam-se as estrelas sobre nós.

No breve toque, a dor se desfazia,

E mundos emudeciam sem voz.

 

Se o tempo fosse apenas nosso altar,

Nenhum adeus pisaria o jardim.

Melhor seria o imenso céu tombar

Que ver teu passo afastar-se de mim.

 

Ergueste a taça com serena mão,

Bebemos juntos livres do temor

E brindamos à audaz devoção,

Como quem sela para sempre o amor.

 

Então senti o veneno pelo corpo,

Silente, lento, impossível deter.

Vi teu sorriso desfazer-se em pó,

Como uma flor cansada de viver.

 

Agora tu dormes onde repouso,

Não há mais leis, culpas ou qualquer juiz.

Se a vida nos negou tamanho gozo,

A piedosa morte, enfim, nos quis.

 

 


Nota da autora


Este poema foi publicado na coletânea "Amor Fatal", da Editora Carnage, juntamente com mais dois outros textos: a crônica com o título "Afeto ou Posse" e o conto com o título "Sonho Escarlate", publicado também anteriormente pela Editora Quimera na coletânea "Rastros de Sangue", destacado como o quarto melhor conto do livro.


"O Beijo de Cicuta" inscreve-se na tradição do amor trágico, aproximando-se de obras clássicas como Romeu e Julieta, em que a intensidade do sentimento desafia os limites da própria existência. Contudo, o poema não se limita a evocar essa herança literária: constrói uma identidade própria ao transformar a cicuta, antigo símbolo da morte, no elemento central de um pacto silencioso entre dois amantes. O resultado é uma reflexão poética sobre a entrega absoluta, em que amor e morte deixam de ser forças opostas para tornarem-se inseparáveis.


A composição destaca-se pela maneira como conduz o leitor. Os primeiros versos apresentam um ambiente de delicadeza e plenitude, marcado por imagens de luz, estrelas, jardins e eternidade. Tudo parece celebrar a comunhão amorosa. No entanto, à medida que o poema avança, a atmosfera luminosa cede espaço à revelação do veneno, produzindo uma mudança de sentido que não rompe a unidade da obra, mas a intensifica. O beijo, antes símbolo de desejo e ternura, revela-se também um selo definitivo, transformando-se na passagem entre a vida e a eternidade.


É justamente nesse contraste que reside a força do poema. Assim como em Romeu e Julieta, o amor encontra na morte sua expressão extrema. Entretanto, enquanto a tragédia shakespeariana nasce do desencontro, do acaso e da fatalidade, "O Beijo de Cicuta" apresenta um desfecho marcado pela escolha compartilhada. A taça erguida pelos amantes simboliza uma decisão consciente, conferindo ao ato final um caráter quase ritualístico, em que o veneno deixa de representar apenas destruição para tornar-se a última forma possível de permanência.


O título desempenha papel essencial nessa construção. A palavra cicuta desperta desde o início a expectativa de um destino inevitável, mas somente nos versos finais revela toda a sua dimensão simbólica. O beijo deixa de ser apenas um gesto de afeto para converter-se em sacramento da união definitiva. Dessa maneira, o poema dialoga com a tradição das grandes tragédias amorosas da literatura ocidental, preservando, ao mesmo tempo, uma voz própria, marcada pela delicadeza da linguagem, pelo simbolismo clássico e pela beleza melancólica de seu desfecho.


Graça, paz e nada de amores fatais!


Adriana Costa Reis


Certificado de participação


Capa do livro


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Textura de mármore em close-up

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