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Sonho Escarlate

  • 15 de mar.
  • 7 min de leitura

Atualizado: 29 de jun.

Por Adriana Costa Reis




A mulher estava parada na entrada da casa como quem desperta no meio de um sonho confuso. A noite começava a pesar sobre os arredores e a lâmpada amarelada da varanda oscilava com o vento. Ela não se lembrava de como havia chegado até ali. Também não reconhecia aquela casa ou sequer o próprio nome. Tudo lhe parecia vagamente familiar, mas a cena destoava de qualquer lembrança que tentasse emergir. As suas mãos tremiam levemente e a sua cabeça parecia envolta por uma névoa escura. A porta diante dela estava entreaberta, movendo-se devagar e emitindo um som desagradável que a forçava a manter os olhos abertos. No caminho até a porta, manchas rubras estavam espalhadas pelo chão, ainda úmidas, refletindo a luz fraca. Aquilo lhe provocava ânsia, acrescida ao gosto de ferrugem que dominava sua boca.


Ela sentia dor, mas não conseguia identificar de onde. Levou as mãos ao corpo, procurando desesperadamente algum ferimento. Não havia cortes aparentes nos braços, no pescoço ou no rosto. Passou as mãos pelo ventre, ombros e cintura. E nada. Nenhuma ferida aberta que justificasse tanto sangue. No entanto, algo ardia dentro dela, uma dor profunda que tomava todo o peito. A mulher pressionou a mão sobre o coração, tentando aliviar a sensação. Mesmo intacta, o toque trouxe um novo lampejo de dor, que pulsava vagarosa, como uma lembrança tentando emergir, algo terrível que se movia nas sombras da memória. O seu coração parecia atravessado por algo invisível, e sentiu um frio percorrer o corpo inteiro, uma angústia misturada a horror. Ela contraiu os olhos, mas nenhuma imagem completa e definida vinha à mente.


Por um instante, pensou em correr e fugir daquela situação pavorosa. Mas, cambaleante e tomada por um impulso estranho de compreender, ela empurrou a porta e entrou na casa. O cheiro metálico atingiu suas narinas imediatamente. A sala estava em silêncio absoluto, mas o chão gritava uma história violenta. Ela avançou lentamente, sentindo o coração acelerar a cada passo. Manchas espessas se espalhavam pelo assoalho e o rastro a conduzia em direção à escada. No primeiro degrau havia uma poça de sangue que ainda parecia fresca. Ela subiu desacreditada, segurando o corrimão, enquanto o sangue reaparecia degrau após degrau. O caminho levava ao corredor do andar superior e seguia direto para o quarto. O ar ali estava mais pesado, saturado de sangue. A porta estava aberta e, além dela, a escuridão parecia ter vida própria.


Ao entrar no quarto, sua mão tateou a parede até encontrar o interruptor. Quando a luz se acendeu, o mundo pareceu se inclinar sob seus pés e seus olhos se recusaram a aceitar o que viam. O primeiro corpo estava nu, imóvel sobre a cama, os lençóis completamente encharcados de sangue e vísceras. O rosto estava desfigurado, irreconhecível, sem qualquer traço humano. O segundo corpo, igualmente nu, parecia ainda pior. Estava sobre o piso de madeira que absorvia o sangue com avidez. Algo estava terrivelmente errado com aquela figura. Ela deu dois passos para trás, mas o estômago se revoltou antes que pudesse reagir. Curvou-se bruscamente e vomitou. O líquido ácido caiu diretamente sobre os intestinos expostos do corpo que estava no chão. E só então percebeu que aquele corpo não tinha cabeça.


O choque fez suas pernas falharem e a mulher caiu de joelhos. Tentou respirar fundo, mas o ar parecia pesado demais para entrar nos seus pulmões. O quarto girava ao seu redor. Precisava chamar ajuda. Era urgente que alguém viesse. Com esforço, ela se levantou e atravessou o corredor, apoiando-se nas paredes. Seus pés escorregavam nas manchas no chão. O cheiro metálico a acompanhava pelo corredor. Quando chegou à mesa com o telefone fixo, estendeu a mão trêmula para pegá-lo. Seus dedos estavam rígidos e cobertos de sangue pegajoso. Ao tentar discar, o aparelho deslizou entre suas mãos. Ela desistiu e correu para a escada, escorregou no sangue e rolou até embaixo. O impacto contra o piso roubou-lhe o ar, já difícil de respirar. Ficou estendida ali, ouvindo o próprio coração martelar dentro do peito.


Levantou-se com dificuldade e recuou alguns passos. A cabeça latejava. O medo agora tomava conta de cada parte do seu corpo. Ela caminhou pelo limite da sala e cozinha, apoiando-se nos móveis, e o chão de tábuas rangia discretamente sob a pressão de seu peso. Ao apoiar-se na mesa, viu a base do jogo de facas faltando uma delas. Uma breve lembrança fragmentada veio à mente e sua cabeça doeu ainda mais, fazendo-a cair outra vez no chão. Por um instante, teve a impressão de ouvir um grito ecoando dentro da própria memória. Arrastou-se até perto da porta de entrada da casa e viu-se no espelho antigo que havia ali ao lado. O reflexo que viu a enfureceu. Com ódio súbito, esmurrou o espelho, que ficou em pedaços. Suas lágrimas lavaram o sangue da face, então ergueu-se e saiu daquele lugar correndo para fora.


Ao sair da casa, deparou-se com um grupo de corvos espalhados na varanda, que inclinavam suas cabeças em direção a ela. O grasnar rouco dos pássaros cortou o silêncio da noite. Aquele som trouxe um lampejo de lembrança de duas meninas rindo no mesmo lugar, espalhando grãos no chão enquanto os corvos se aproximavam sem medo. A visão desapareceu tão veloz quanto surgiu, mas deixou um gosto amargo em sua garganta. Um ódio inexplicável a invadiu ainda mais. Com um gesto brusco, agarrou uma cadeira próxima e a arremessou contra os corvos, mas nenhum deles parecia disposto a voar. Então, apanhou algumas pedras do chão e as lançou contra eles, gritando insultos enquanto os espantava. Os pássaros se agitaram num bater de asas. Em seguida, virou-se e seguiu apressada pela estrada deserta que se perdia além do portão.


Correu como se algo a perseguisse, e o vento gelado batia em seu rosto, trazendo um pouco de lucidez à mente embaraçada. Enquanto avançava pela estrada, a cena do quarto voltava em fragmentos: o sangue, os corpos imóveis, o cheiro metálico que parecia impregnado em sua pele. As imagens surgiam e desapareciam como relâmpagos dentro de sua mente. A dor no peito pulsava a cada passo. As pernas já não respondiam com a mesma força. O ar parecia rasgar seus pulmões enquanto tentava respirar. Mesmo assim, continuou correndo, sem olhar para trás. De repente, seus pés tropeçaram em alguma coisa e ela tombou pesadamente sobre a lama. O impacto fez sua visão escurecer e ela permaneceu estendida, tentando recuperar o fôlego. A noite parecia esmagá-la contra o chão, enquanto suas mãos tateavam às cegas, procurando apoio.


Ao tatear o chão, suas mãos deslizaram até encontrar algo frio e rígido. A mão se fechou instintivamente ao redor do objeto. Quando o ergueu à altura dos olhos, reconheceu a lâmina coberta de sangue. A saliva secou em sua boca e ela engoliu em seco. A verdade parecia prestes a surgir inteira diante dela. Com um gesto brusco, lançou a faca para longe, como se o contato queimasse sua pele. Virou-se de lado, tomada por um choro convulso. Foi então que viu, a poucos centímetros de seu rosto, algo imóvel sobre a terra. Era uma cabeça humana. Os olhos estavam arregalados, a boca entreaberta, cheia de sangue e formigas. O rosto era idêntico ao seu. Com cuidado quase reverente, ela afastou delicadamente os insetos, reconhecendo sem qualquer dúvida a irmã gêmea que, horas antes, encontrara na cama com seu namorado.


Fechou os olhos e levou as mãos aos cabelos da irmã. Enrolou-os entre os dedos e começou a acariciá-los lentamente, do mesmo modo que fazia quando eram crianças. Aproximou o rosto e respirou fundo, sentindo nos cabelos o cheiro antigo de inocência, que lhe trouxe uma paz que ela já não conhecia. O gesto surgiu de maneira automática, vindo de um lugar profundo da memória. Enquanto a noite estava suspensa ao redor das duas, o choro da mulher foi diminuindo até restarem apenas soluços. Ela permaneceu ali, abraçada à cabeça da irmã, embalando-a em silêncio. O corpo exausto acabou cedendo ao peso do cansaço. Assim adormeceu sobre a terra fria do caminho. Quando despertou, uma luz clara tocava seu rosto. Sem saber se era a lua ou o sol, abriu os olhos e encontrou a irmã ao seu lado, incapaz de distinguir se aquilo era sonho ou realidade.

 

 


Nota da autora


Este conto foi publicado pela primeira vez na coletânea "Rastro de Sangue", da Editora Quimera, sendo considerado o quarto melhor texto do livro. Posteriormente, foi publicado na coletânea "Amor Fatal" da Editora Carnage, juntamente com mais dois outros textos: o poema com o título "O Beijo de Cicuta" e a crônica "Afeto ou Posse?".


"Sonho escarlate" é um conto de horror psicológico que conduz o leitor por um labirinto de memória, culpa e violência. A narrativa acompanha uma mulher que desperta sem recordar quem é ou como chegou àquele lugar, sendo guiada apenas por um rastro de sangue que parece conduzi-la tanto ao cenário de um crime quanto às regiões mais profundas de sua própria consciência. A principal força do conto está na construção gradual do suspense. O mistério não se limita à descoberta do que aconteceu, mas à gradual reconstrução da identidade da protagonista. À medida que fragmentos de memória emergem, o horror deixa de estar apenas nos corpos encontrados e passa a habitar a própria mente da personagem. O sangue, os corvos, a casa e o espelho deixam de ser simples elementos de ambientação para assumirem um papel simbólico na narrativa, refletindo culpa, ruptura e perda. Mais do que um conto sobre um crime, Sonho escarlate investiga os limites da consciência diante de um trauma extremo. O desfecho preserva uma ambiguidade que permite diferentes interpretações, mantendo o leitor suspenso entre realidade, sonho e delírio. É justamente essa incerteza que prolonga o impacto da narrativa para além de sua última linha.


Graça, paz e discernimento!


Adriana Costa Reis



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Comentários


Textura de mármore em close-up

Criar é escrever-se. Todos os Direitos Reservados ® Adriana Costa Reis

 

"Assim, ao Rei eterno, imortal, invisível, Deus único,

honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém!"

1Timóteo 1:17

"Orai pela paz de Jerusalém!

Prosperarão aqueles que te amam."

Salmo 122:6

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