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A herança de Van Gogh

  • 19 de mar.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 10 de abr.

Por Adriana Costa Reis



A arte se oferece à contemplação, onde o olhar descansa e a experiência se organiza. Mas nem sempre oferece repouso. Por vezes, deixa de ser apreciação e se impõe como confronto, exigindo de nós enfrentamento. Um exemplo disso está em algumas obras de Vincent Willem van Gogh. Diante de seus céus noturnos, que ora se movem em espirais dinâmicas, ora permanecem quietos sob o brilho intenso das estrelas, não somos apenas espectadores, mas implicados por eles e arrastados por um movimento contínuo. A beleza ali não está em quietude, mas em estado de tensão e vertigem.


O amarelo de seus campos de trigo que atravessam quadros é muito mais do que cor. É vida que transborda a ponto de quase se romper, é potência que não cabe dentro. Há nesse excesso uma presença de força que avança sobre quem olha. É matéria pulsante que parece expandir-se além dos próprios limites, como se a própria tela não fosse suficiente para contê-la. E, ao olhar seus girassóis, encontramos vitalidade inquieta, energia acumulada em luta contra o próprio tempo. Essas flores parecem resistir ao seu fim, sustentando uma beleza que já carrega, em si, o anúncio de sua perda.


Há, em grande parte de sua obra, uma honestidade que desconcerta. Nada ali tenta suavizar o vivido. Ao contrário, parece intensificá-lo. Cada pincelada carrega uma insistência, e pintar se torna muito menos um ato artístico e mais um esforço para permanecer inteiro e vivo. Vai além de técnica; trata-se de sobrevivência. E talvez seja isso que nos toca, porque vivemos tentando esconder o que nos excede, conter a emoção, corrigir o que nos escapa. A dor deve ser silenciada, a tristeza administrada, o desajuste corrigido. O que não se encaixa precisa ser forçado, comprimido para caber.


Não é isso que fazemos com aquilo que em nós não cabe?


Van Gogh, ao contrário, não tentou reduzir o que sentia, tentou dar forma ao que transbordava. Viveu episódios de grande instabilidade emocional e angústia profunda. Não teve sucesso com as vendas de suas obras, sabia que não era reconhecido e viveu sustentado pelo irmão. Nas cartas endereçadas ao irmão, revela-se não apenas consciente de sua própria fragilidade e solidão, mas também da frustração por não ser reconhecido. Ainda assim, preocupava-se em produzir algo verdadeiro, em dar à sua arte um propósito e utilidade humana, o valor real de tocar as pessoas.


Muito provavelmente, a sua obra era uma tentativa de salvação, de não se perder completamente. O fato é: nem todos nós pintaremos quadros ou transformaremos nossa inquietação em arte. Mas todos nós, em algum momento, experimentaremos esse excesso e seremos incapazes de nomear o que sentimos. O risco, aqui, não é sermos tomados pelo que nos excede. O risco é não fazermos nada com isso. O sofrimento ignorado não desaparece. Ele se acumula, pressiona, desorganiza. Mas a dor que encontra expressão, embora imperfeita e incompreendida, torna-se habitável.


Talvez não precisemos transpor tudo em arte, mas precisamos converter isso em algo. Palavra. Silêncio apurado. Escrita. Gesto. O que não pode é permanecer bruto, informe, sem destino. Porque o não simbolizado, elaborado, retorna — e retorna com mais força. E, ao permanecer sem destino, tende a se manifestar como mal-estar contínuo que não encontra causa evidente. Trata-se de algo que se instala aos poucos, corroendo a clareza e deslocando o sentido das experiências, afetando relações e decisões, interferindo, assim, na própria maneira de viver.


Há uma última camada nessa lição, e ela talvez seja a mais desconfortável. Van Gogh não foi salvo por sua arte. Sua obra não o protegeu de si mesmo. A criação ofereceu expressão, e certamente saída, que ele não pôde ver. Isso nos impede de romantizar sua dor e nos obriga a olhar com mais seriedade para aquilo que sentimos. Criar não é garantia de cura. Mas não criar nada na vida é um silencioso processo de perda de si. Entre a expressão e a queda, há um espaço que nem sempre conseguimos sustentar. E é nesse intervalo que a vida, muitas vezes, desaba.


Hoje, diante de seus quadros, não estamos apenas vendo o trabalho de um artista. Estamos sendo confrontados por uma pergunta: O que em nós pede forma e insistimos em ignorar? O que evitamos compreender não deixa, por isso, de existir. Talvez seja essa a verdadeira herança de Van Gogh. Não suas cores. Não suas telas. Mas sim, o chamado incômodo que atravessa sua obra e chega até nós, séculos depois. Porque, no fim, a beleza que nos comove não está apenas no que ele pintou, mas no fato de que ele tentou, até o limite, não sucumbir ao que sentia, ainda que não tenha conseguido.



Nota da autora


A herança de Van Gogh é uma crônica escrita especialmente para o livro Uma coletânea de obras inspiradas em Van Gogh, da Editora Holandas. Proponho uma reflexão sobre aquilo que, em nós, insiste em existir sem encontrar forma. Mais do que contemplar a arte, o texto se volta para aquilo que a torna necessária. Ao contemplar as telas do artista, reconhecemos um gesto humano profundo: o esforço de dar destino ao que não se organiza. Van Gogh fez da pintura uma tentativa de lidar com o próprio sofrimento, de compreendê-lo e não se deixar consumir por ele. Deixou-nos algo que ultrapassa o seu desejo original, de que sua arte trouxesse consolo. Se ela não foi capaz de salvá-lo, ainda assim permanece para nós como herança: o gesto de tentar compreender e sustentar o que nos atravessa, sem sucumbir.


Graça, paz e criatividade a todos!


Adriana Costa Reis



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Textura de mármore em close-up
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"6 Orai pela paz de Jerusalém; prosperarão aqueles que te amam.

7 Haja paz dentro de teus muros, e prosperidade dentro dos teus palácios.

8 Por causa dos meus irmãos e amigos, direi: Paz esteja em ti.

9 Por causa da casa do Senhor nosso Deus, buscarei o teu bem."
Salmo 122

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