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Olhar Quintanesco

  • 13 de abr.
  • 3 min de leitura

Por Adriana Costa Reis



Diziam que Mário Quintana tinha o dom de enxergar o grandioso nas coisas mais simples. Seu quintal era a praça, a rua, a janela — e sua matéria-prima, o instante breve que escapava à pressa dos olhos. Sabia que o mais significativo não morava no excesso, mas no detalhe que se oferecia sorrateiro. Nada era pequeno demais para não merecer atenção. Ao contrário, eram as coisas miúdas que bordavam a tapeçaria dos dias. Como quem descobre coisas perdidas no bolso do casaco, via beleza onde quase ninguém suspeitava. E, ao falar do mínimo, revelava sempre o essencial, tornando-o imenso.


Como numa manhã qualquer, quando eu parei para tomar um chá olhando pela janela. Lá fora, um senhor passeava com seu cão, corvos sobrevoavam o céu acima de sua cabeça, e coelhos farejavam o mesmo caminho. E, no vapor da xícara, percebi que a liberdade estava ali, disfarçada de rotina. Escondia-se nos gestos mais banais que quase ninguém via. Estava na calma com que o homem segurava a guia, no voo irregular das aves, nos pulos desordenados dos animais. Era justamente ali, no comum, que a vida se mostrava livre e infinita, fora da sala onde eu estava.


O quintanesco é isso: é perceber que a beleza não se anuncia com trombetas, mas prefere um sussurro. Um jeito de olhar que não busca a vida nos clarins dos fogos de artifício, mas no fiapo de luz escondido entre as nuvens. É ver determinada cena e transformá-la em memória. A vida não se mede apenas por coisas extraordinárias, mas pelas ordinárias que nos amparam sem alarde. Quem aprende a percebê-las descobre que o tempo não é só um calendário que se gasta, mas um caminho feito de encontros e sorrisos inesperados.


Talvez por isso os versos do poeta ainda nos devolvam a ternura de enxergar o mundo, desarmados. A moral? É simples. Quem espera o momento perfeito para notar a beleza acaba não vendo nada. Mas quem se permite a pausa — nem que seja entre a xícara e a janela — descobre que a vida está sempre acenando de volta; basta contemplar atentamente. No fundo, é o olhar que sustenta nossos percursos. Entre uma coisa e outra, mora toda a poesia que precisamos para atravessar a vida.

 

 



Nota da autora


Este texto conquistou o 5º lugar no Prêmio Off Flip de Literatura – edição 2026, na categoria crônica, e integra a coletânea que será lançada durante a FLIP 2026. O reconhecimento reafirma a potência do olhar sensível sobre o cotidiano e celebra a literatura que se constrói a partir de instantes, transformando-os em reflexão e beleza. Nesta crônica, busco exercitar um olhar que se aproxima daquele que Mário Quintana tão bem soube cultivar: perceber o extraordinário no que, à primeira vista, parece comum. Trata-se de um convite a deslocar o olhar habitual, permitindo que o cotidiano revele suas camadas mais sutis. Ao adotar esse viés, a escrita não apenas descreve, mas transforma a percepção, revelando que há beleza, poesia e sentido onde, muitas vezes, não costumamos procurar. Mais do que narrar, a proposta é sensibilizar o olhar, para que possamos ver, de fato, aquilo que sempre esteve diante de nós.


Graça, paz e olhar atento a todos!


Adriana Costa Reis




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Textura de mármore em close-up
Criar é escrever-se

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"6 Orai pela paz de Jerusalém; prosperarão aqueles que te amam.

7 Haja paz dentro de teus muros, e prosperidade dentro dos teus palácios.

8 Por causa dos meus irmãos e amigos, direi: Paz esteja em ti.

9 Por causa da casa do Senhor nosso Deus, buscarei o teu bem."
Salmo 122

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