Rastros de Clarices
- 10 de abr.
- 3 min de leitura
Por Adriana Costa Reis

Escrevo para me salvar, embora nem sempre saiba de quê. Às vezes, é do peso do tempo, ou do silêncio que insiste em se instalar. Há dias em que as palavras são a única forma que encontro de respirar, de manter o pulso que me prende ao sentido. Talvez fosse isso que Clarice Lispector intuísse: que escrever é o gesto mínimo capaz de nos impedir de desmoronar. Enquanto o mundo corre, eu me recolho ali, entre a fricção da caneta e o sopro do pensamento. Não por vaidade, mas por necessidade. Cada frase que nasce é uma tentativa de permanecer inteira, mesmo quando tudo parece em ruína.
A cada texto, aprofundo-me um pouco mais em mim mesma, encontro fragmentos que não sabia que existiam e os rearranjo. Escrevo para compreender o que já aconteceu, para suportar o que ainda virá ou simplesmente para sentir a beleza do instante em que algo respira pela primeira vez. As palavras têm esse poder de dar corpo ao que é informe e direção ao que se perde. Elas não me protegem das angústias, mas me oferecem um lugar para pousá-las e celebrar o alívio que vem depois. E, quando o papel me devolve o que assentei nele, descubro que sobreviver também é uma arte que se aprende escrevendo.
A criação exige atenção ao que ferve dentro e pede tradução, tem sua própria vontade. Escrever é ato de gestar. Cada ideia pulsa na mente até criar corpo, e é aí que sinto um espanto maravilhoso, como uma mãe que vê seu filho nascer. Cada texto me atravessa como se soubesse mais do que eu, e assim, sou testemunha do que se ergue do indizível, suscitado por força que não domino, apenas acolho, sendo mais instrumento do que autora, mais caminho do que destino. Sigo escrevendo, movida por uma energia indomável, que não sei nomear, mas que me mantém viva, renascendo em cada palavra.
Não sou a única, há muitas mulheres que, como eu, escrevem para não desaparecer. Cada uma, à sua maneira, tenta costurar sentido no que a vida rasgou. Carregamos nas pontas de nossas canetas, como herdeiras, a memória de Clarice e de tantas outras que transformaram a escrita em abrigo. Escrevemos porque algo em nós se recusa a morrer, mesmo quando tudo desaba. A escrita nos devolve ao que há de mais vivo: o fascínio, a coragem, o gesto de continuar. E isso nos une, não para sermos lidas, mas para continuarmos vivas, deixando um rastro do que ainda sonhamos ser.
Nota da autora
Rastros de Clarices é uma crônica finalista na chamada literária Nós Volume 4, organizada pelo Selo Off Flip. A reflexão apresenta a escrita como gesto de permanência, um modo de sustentar o que, dentro de nós, insiste em não se perder. Se volta ao ato de escrever como forma de atravessar a própria experiência. Mais do que um exercício literário, a escrita surge como abrigo: um espaço em que o indizível encontra forma, e aquilo que ainda não pode ser dito começa, enfim, a ganhar contorno.
Escrever, para mim, não é apenas criar, mas escutar o que se move internamente: pensamentos ainda dispersos, emoções que não encontram nome, inquietações que pedem forma, que silenciosamente insistem em vir à tona. Há uma matéria sensível, muitas vezes confusa, que encontra na linguagem uma possibilidade de organização. Cada texto é, assim, uma travessia: não parto sabendo exatamente aonde chegarei, mas confio no percurso que se revela à medida que escrevo.
Talvez por isso a escrita carregue também um traço de espanto. Há momentos em que o texto parece saber mais do que quem o escreve; brota de uma zona profunda da experiência, em que memória, sensibilidade e reflexão se entrelaçam, revelando sentidos que só se tornam visíveis no próprio ato de escrever. Nesse sentido, escrever é também um exercício de entrega, um gesto de confiança no que ainda não está totalmente claro, mas já se anuncia. Trata-se de menos domínio e mais disponibilidade.
Esta crônica é, ainda, um gesto de reconhecimento. Não escrevo sozinha. Há muitas mulheres que escreveram antes de mim, que abriram caminhos onde hoje posso caminhar. Carrego, nas entrelinhas, ecos dessas vozes que transformaram a escrita em resistência, permanência e reinvenção. E, se outras mulheres reconhecerem nesses rastros um chamado, que se permitam segui-los: escrever pode ser caminho de escuta e elaboração. Muitas vezes, é na própria escrita que nos encontramos.
Não é preciso ter todas as respostas, basta começar.
Graça, paz e boa escrita a todos!
Adriana Costa Reis

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