A Mula-sem-Cabeça
- há 5 dias
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Por Adriana Costa Reis

Falava-se de uma moça que se engraçou com o jovem padre. Eles se encontravam às escondidas na sacristia da paróquia. Entre incenso e velas, pairava o cheiro de pecado. O assoalho de madeira rangia enquanto sussurros viravam juramentos de amor eterno. Mas o segredo vazou pelas frestas. Mulheres cochichavam na fonte e homens na venda, e a fofoca correu mais rápido que os sinos. O padre temeu ser suspenso de suas funções sacerdotais e receber castigo direto de Deus. Apavorado, decidiu recuar e evitá-la, mesmo que seu desejo ainda queimasse com intensidade infernal, e disse em oração:
— Minha batina é santa, já meu coração, nem tanto. Senhor, ajude-me.
Ignorada, a pobre moça ferveu de raiva pelo juramento quebrado e, literalmente, perdeu a cabeça. Dizem que mulher que se envolve com padre só pode ser amaldiçoada! Depois, toda noite de quinta-feira, um vento de enxofre a envolvia até virar uma mula, e a cabeça desaparecia em chamas. Ela lançava fogo e corria em disparada por matas e campos, feria animais e pessoas que cruzassem seu caminho. O encantamento só desaparecia ao terceiro cantar do galo e ela voltava à sua normalidade aparente. Conta-se que, temendo que o padre se encantasse por outras, ela lançou uma maldição:
— Quem dormir com o namorado antes do casamento se tornará uma mula.
O padre, porém, não ficou quieto por muito tempo e voltou a xavecar pela paróquia como se nada tivesse acontecido. Os pais não sabiam o porquê de tanta visita e benzeção, e as mães vigiavam as filhas como quem cuida das galinhas perto da raposa faminta. Todos os outros olhavam para o mato com desconfiança, jurando ouvir relinchos em noite de quinta-feira. Alguns ainda rezam, outros fazem piadas, mas é melhor que você fique esperto, pois depois da maldição há muito mais mulas do que moças por aí. E, na dúvida, é melhor rezar muito antes de namorar ou prometer casamento.
Mais do que pincelar o folclore, podemos tirar muitas lições dessa história, mas uma especificamente nos convida à reflexão: uma atitude desmedida de raiva gera consequências muito ruins. Deve-se manter o autocontrole e a sabedoria para conservar a calma em situações de pressão e conflito. Não se deve irar facilmente, porque a ira abriga-se no seio dos tolos desde sempre. Quem não sabe controlar as suas emoções e vontades é como aquela pobre moça — ou criatura, vai saber. Estava com a razão ao sentir-se enganada, mas, irritada, perdeu a cabeça, e a razão também foi junto.
Nota da autora
Este é um dos três contos publicados na coletânea Bestiário Popular Brasileiro, do Coletivo Literário Aspas Duplas. Inspirada em uma das lendas mais conhecidas do folclore nacional, "A Mula-sem-Cabeça" revisita a tradição popular por meio de uma narrativa que combina humor e reflexão. A história resgata elementos clássicos da lenda, como o romance proibido com o padre, a maldição e a transformação da jovem na criatura de fogo que atravessa campos e matas durante as noites de quinta-feira. Ao mesmo tempo, utiliza esses elementos para refletir sobre temas universais como a raiva, o autocontrole e as consequências das escolhas impulsivas. Mais do que uma narrativa fantástica, o conto mostra como o folclore preserva, por trás de seus monstros e encantamentos, observações sobre o comportamento humano. Nesse sentido, a Mula-sem-Cabeça torna-se também uma metáfora para os momentos em que a emoção assume o controle e a razão acaba ficando para trás.
Graça, paz e cuidado com a mula!
Adriana Costa Reis

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