O boto-cor-de-rosa
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Atualizado: há 3 dias
Por Adriana Costa Reis

Entre todas as criaturas do folclore brasileiro, poucas alcançaram fama tão duradoura quanto o boto-cor-de-rosa. Habitante dos rios amazônicos, era descrito como um golfinho de água doce de coloração rosada que, segundo a crença popular, possuía um talento incomum para abandonar seu habitat e assumir forma humana. Surgia sempre como um rapaz elegante, formoso, bem vestido, educado e misterioso, uma combinação particularmente perigosa em qualquer época da história. Diferentemente de muitas criaturas folclóricas associadas ao medo, sua presença costumava ser aguardada com curiosidade e, muitas vezes, com expectativa. Seu sucesso foi tão grande que seu nome atravessou gerações e permaneceu vivo, e digo, muito vivo! Enquanto outras lendas assustavam crianças ou inspiravam cautela, ele despertava suspiros.
A transformação, porém, não era perfeita. No topo da cabeça, o boto possuía um orifício respiratório chamado espiráculo, por onde respirava quando emergia à superfície. Como nem mesmo a magia conseguia esconder esse detalhe anatômico, ele saía usando um chapéu que jamais retirava. A peça tornou-se tão característica quanto o próprio personagem. Bastava um desconhecido aparecer numa festa ribeirinha, vestido todo de branco, sorrindo para as moças e protegendo cuidadosamente a cabeça, para que os mais velhos o observassem com desconfiança. Afinal, ninguém passa horas usando chapéu sob o calor amazônico sem ter algo a esconder. E, no caso do boto, o segredo ficava literalmente à mostra logo abaixo da aba. Diziam que nem os mais machões ousavam arrancar-lhe o chapéu, pois poderiam ser eles mesmos seduzidos.
Segundo a lenda, ele aparecia principalmente durante celebrações religiosas e comemorações juninas. Dançava muito bem, seus causos eram fascinantes, seus elogios irresistíveis, sua companhia agradável e seu charme mais envolvente do que o de qualquer rapaz da região. Eles sequer conseguiam competir, enquanto alguns gastavam a festa inteira reunindo coragem para convidar uma pretendente para dançar, o boto já estava na segunda quadrilha e colecionando admiradoras. Não demorava para conquistar a simpatia das jovens. Depois das festividades vinham os passeios às barrancas, as promessas sussurradas sob a lua cheia e os romances passageiros. Antes do amanhecer, porém, ele desaparecia silenciosamente, retornando às águas sem deixar endereço, sobrenome ou nenhuma intenção de participar das consequências de seus encantos.
Foi justamente dessas consequências que sua verdadeira fama se estabeleceu. Por muito tempo, quando uma moça aparecia grávida e o pai da criança era desconhecido, ausente ou simplesmente inconveniente para a narrativa oficial da comunidade, alguém invariavelmente apontava para o horizonte e encerrava o assunto com uma explicação considerada suficiente: "Foi o boto". E pronto. O acusado jamais comparecia para negar ou confirmar as suspeitas. Isso porque talvez fosse inocente, talvez fosse culpado, ou talvez tivesse descoberto muito cedo uma vantagem extraordinária: quando todos acreditam na mesma versão, ninguém se preocupa em investigar os fatos e organizar um tribunal à beira do rio. E assim, protegido pela própria lenda, o boto tornou-se provavelmente o mais célebre galanteador do imaginário brasileiro.
Mas lendas são lendas. Histórias crescem, exageram e acabam recebendo mais enfeites do que uma árvore de Natal. Os fatos costumam ser mais simples. O boto-cor-de-rosa prosperou porque existiam festas e gente reunida em rodas sob o céu da noite. Restavam poucas distrações além de encontros improvisados, chavecos ao luar e, claro, permitir que a natureza seguisse seu curso. Com a chegada da televisão, da internet e do celular de tela brilhante e hipnótica, o maior sedutor do folclore nacional, acostumado a competir apenas com sanfoneiros e rapazes tímidos, descobriu tarde demais que agora disputava atenção com vídeos de quinze segundos. Dizem que antigamente as famílias eram grandes porque não havia televisão em casa. Se a teoria estiver correta, convém não culpar o boto; ele sempre trabalhou duro, mas perdeu para o Wi-Fi.
Os primeiros sinais da crise surgiram de forma discreta. Numa tradicional festa ribeirinha, o boto compareceu vestido com seu habitual traje branco e o inseparável chapéu. Esperava encontrar a poeira levantada pelo forró, grupos reunidos ao redor das fogueiras e cantorias atravessando a madrugada. No entanto, encontrou pessoas sentadas lado a lado em absoluto silêncio, cada uma iluminada pela própria tela. Havia mais dedos deslizando sobre aparelhos do que pares rodopiando pelo salão. Algumas moças dedicavam mais sorrisos à câmera do que aos rapazes ao redor. Outras inclinavam a cabeça, ensaiavam beicinhos e lançavam olhares sedutores para aqueles miseráveis retângulos luminosos que sequer possuíam coração. O boto observou tudo com crescente indignação. Nunca tantos beijos lhe pareceram tão desperdiçados.
A situação repetiu-se incontáveis vezes. Em outra época, bastava atravessar o salão para iniciar uma conversa; agora precisava competir com notificações e influenciadores digitais que jamais pisaram numa canoa. Certa vez, aproximou-se de uma jovem com um elogio cuidadosamente elaborado, mas ela o ignorou, assistindo a um vídeo de alguém ensinando um papagaio a andar de skate. O golpe atingiu profundamente seu orgulho, porque perdera para uma ave sobre quatro rodinhas. Noutra ocasião, com sua aproximação ensaiada e elegante, descobriu que a moça estava fascinada por uma longa discussão sobre os relacionamentos amorosos de celebridades da internet. Ele achou muito estranho que alguém pudesse demonstrar tanto interesse pelos romances dos outros enquanto ignorava um perfeitamente disponível diante de si.
Depois de muitos fracassos, o boto decidiu adaptar-se aos novos tempos. Se as pessoas já não frequentavam as rodas de conversa, ele iria até onde elas estavam. Criou um perfil numa rede social e passou a publicar frases românticas. Por um tempo, acreditou que havia recuperado parte do prestígio perdido. Afinal, milhares de pessoas começaram a segui-lo. Mas a ilusão durou pouco. Os comentários raramente mencionavam seu charme ou suas mensagens inspiradoras. A imensa maioria queria ver o famoso espiráculo que ele escondia debaixo do chapéu e insistia em compará-lo a outros orifícios do corpo. Quando percebeu que a maioria dos curiosos não era composta pelas mulheres que pretendia impressionar, mas por admiradores dos mais variados tipos, o boto ficou desconcertado, encerrou a conta e recolheu-se novamente às profundezas.
Hoje o boto talvez tenha perdido sua exclusividade em meio às incontáveis personalidades excêntricas que disputam atenção no mundo digital. Ainda assim, segundo a antiga lenda amazônica, nas noites de lua cheia, ele continua abandonando as águas dos rios, vestindo seu terno branco e procurando novas maneiras de encantar. De vez em quando, ainda se escuta alguém apontar para as margens e dizer: "Foi o boto". Alguns juram que ele desapareceu, outros acreditam que se adaptou aos novos tempos. E, para ser justo, nenhuma lenda sobrevive por tantos séculos sem aprender alguns truques novos. Mas, afinal, onde está o boto? Bem, velhos hábitos são mais resistentes do que parecem, e cá estou eu, terminando de escrever esta história, atrás de mais uma maneira de alcançar uma bela moça... Ops... você é uma moça, não é?
Nota da autora
Este é um dos três publicados na coletânea, Bestiário Popular Brasileiro, do Coletivo Literário Aspas Duplas. Em "O Boto-Cor-de-Rosa em tempos modernos", a tradicional lenda amazônica é revisitada com humor e ironia sobre costumes e formas de relacionamento da sociedade atual. O lendário sedutor dos rios, acostumado a conquistar admiradoras em festas e encontros à luz da lua, vê-se diante de um desafio inesperado: competir com celulares e redes sociais. Ao mesmo tempo em que apresenta ao leitor os principais elementos da lenda do boto-cor-de-rosa, o conto propõe uma divertida reflexão. Entre tradição e modernidade, fantasia e crítica bem-humorada, a narrativa preserva o encanto do folclore brasileiro enquanto imagina como uma das figuras mais conhecidas do imaginário popular enfrentaria os dilemas do século XXI.
Graça, paz e cuidado com o boto!
Adriana Costa Reis

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