O Mar e a Menina
- 31 de mai. de 2017
- 2 min de leitura
Atualizado: 13 de abr.
Por Adriana Costa Reis

No anseio por sentir as águas em seus pés,
A menina em excessiva alegria
Corre ao encontro do mar.
Com espanto e admiração, sorrisos dá.
O mar encantado toda a quer.
Abraçando-a com suas ondas,
Todo o seu corpo quer molhar.
A menina envolvente brinca com o mar
Em suas ondas que vem e vão,
Na beira sem se aprofundar.
O mar atraente e sedutor,
No entanto, desconhecido,
Faz a menina recuar.
O mar apaixonado tenta puxar
Os pés temerosos da menina à beira.
O mar insistente agarra aos pés,
A menina temente se solta depressa.
Mas apaixonada igualmente,
Volta ao mar os pés molhar.
Dos pés molhados, corpo mergulhado.
Com temor e ousadia, no agarra e solta,
Mar e menina se namoram por todo o dia.
Nessa brincadeira ou namoradeira,
Eles são como ondas e areia,
Que se misturam e se separam
Em muitos breves instantes.
E saciada a menina com o corpo molhado,
Se secando, embora vai.
E de despedida, um só olhar o mar tem.
O mar saudoso sempre volta,
Volta à beira a menina procurar.
Sem sua amada, só lhe resta
Com suas ondas que vem e vão,
Todos os dias à beira a areia tocar.
Na esperança de um dia encontrar
Ao menos os pés de sua menina.
Nota da Autora
"O mar e a menina" é um protótipo de um projeto maior: um livro ilustrado em forma de poema-fábula, que narra a história de amor entre o mar e uma menina. Este poema nasce de uma cena simples: minha afilhada diante do mar pela primeira vez. Encantada e, ao mesmo tempo, tomada pelo medo, ela se aproximava das ondas com curiosidade, recuava e tornava a avançar. Havia ali um misto de fascínio e de algo assustador, como quem intui a grandeza daquilo que não pode dominar.
Vi ali a mesma hesitação de quem se aproxima do amor. Um movimento entre o desejo e o receio, entre querer tocar e temer ser atravessado. Porque amar, como entrar no mar, é sempre um risco: o de não sair o mesmo. O mar, como figura do amor, não é apenas belo ou contemplativo; ele é, sobretudo, indomável. Não se deixa apreender por inteiro, nem se oferece de forma previsível. Há nele um convite constante, quase um chamado, mas também uma advertência. Amar, nesse sentido, é se aproximar de algo que não se controla, que pode acolher, mas também desestabilizar.
A menina, por sua vez, não representa apenas inocência, mas disponibilidade. Ela se coloca diante do mar sem domínio, sem defesa, sem garantias. Há, nesse gesto, algo essencial ao amor: a disposição para o encontro, mesmo sem saber exatamente o que ele trará. O amor, assim como o mar, não se esgota naquilo que se vê. Ele se insinua, recua, avança, transforma. E quem se aproxima dele não sai ileso. Sai ampliado, muitas vezes, deslocado.
Na versão final, pensada para o livro, constrói-se uma narrativa poética sobre o encontro com o desejo e a aprendizagem dos limites, encerrando-se como uma reflexão sensível sobre a permanência do desejo e a maturidade que nasce da capacidade de partir.
Graça, paz e sabedoria em saber partir.
Carinhosamente, Adriana Costa Reis.

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